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Dia #3: Canção em debate com Zuza Homem de Mello, Heloísa Starling e Renato Terra

29/04/2018

[caption id="attachment_242" align="alignnone" width="840"] Zuza, Heloísa, Renato e Paulo. Foto: Alfredo Alves/Dom B Produções[/caption]

A mesa da tarde, sob o título A força dos festivais, a música e a metáfora na época da censura, juntou o lendário musicólogo Zuza Homem de Mello, a historiadora e cientista política Heloísa Starling e o jornalista e documentarista Renato Terra.

Esse mote, para mim, são dois, que geram reflexões igualmente urgentes: um é o viés da mídia. Essa força que tiveram os festivais da canção dos anos 1960 não pode ser medida sem o necessário entendimento acerca da força da TV, veículo emergente mas já hegemônico à época e, para além disso, as razões simbióticas que fizeram com que esse veículo desse tanto espaço - e subsequente dimensão - à música brasileira que se fazia então. O outro subassunto é a analise da interferência que o aparato repressivo da ditadura teve no conteúdo da produção cultural do nosso país, percebendo não apenas as óbvias restrições e proibições que derivam do constrangimento das liberdades mas, sobretudo, o quanto essas restrições e proibições ajudaram a promover um aprofundamento no uso das metáforas para se construir imagens políticas e a fundar um cancioneiro de protesto.

[caption id="attachment_243" align="alignnone" width="840"] Zuza Homem de Mello. Foto: Alfredo Alves/Dom B Produções[/caption]

Zuza abriu a mesa debruçando-se sobre os festivais mais icônicos da segunda metade da década de 1960. Foi curioso para mim - e eu expus isso a ele durante uma pergunta que fiz - ver seu entusiasmo ao falar do ano de 1968. Como não vivi esse período, sempre olhei esse ano como sendo um ano ruim. Ao elencar os fatos do ano, nada jamais se comparou, no meu tácito e remoto entendimento sobre 68, à decretação do AI-5. Tinha a impressão de que o resto todo era menor, impressão que foi reforçada quando li o clássico de Zuenir Ventura 1968 - O Ano que Não Terminou, talvez, hoje me parece mais claro, menos pelo que está dito no livro do que pelas peças que ele ofereceu para que eu cristalizasse aquilo em que já acreditava.

É comovente ver o entusiasmo de Zuza ao narrar os acontecimentos musicais do que muitos julgam ser o período mais prolífico da música brasileira, o período que culminou na criação do termo MPB. E, enquanto o via narrar aquela história, me dei conta que, talvez, o AI-5 só tivesse sido decretado naquele dezembro de 1968 por ter sido, aquele ano, tão intenso e de tantas rupturas estéticas e comportamentais. Talvez tenha sido um ano bom, afinal.

[caption id="attachment_244" align="alignnone" width="840"] Heloísa Starling. Foto: Alfredo Alves/Dom B Produções[/caption]

Heloísa dedicou sua fala a dissecar, brilhantemente, os meandros subterrâneos dos instrumentos de censura, bem como algumas das letras que expõem a genialidade do compositor popular brasileiro para se fazer ouvir. Costuma-se enxergar a censura como uma corte objetiva de veto. Mas Heloísa, através de minuciosas descrições de alguns casos, mostrou que o cerceamento da liberdade de expressão era muito mais complexo, sujeito a pressões de todos os lados, e que podia lançar mão, inclusive, de estratégias cruéis e heterodoxas, como a suposta liberação pelos censores da peça Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra. Calabar seria censurada sem aviso prévio, depois de pronta para ser levada aos palcos, através de um comunicado que ainda proibia Fernanda Montenegro e Fernando Torres, realizadores do espetáculo, que mencionassem publicamente a proibição. Fernanda e Fernando faliram.

Como também faliu a tentativa de Charles, Anjo 45 de levar um assunto espinhoso a público. A canção, lançada por Jorge Benjor como última faixa de seu álbum homônimo de 1969, não sofreu nenhum tipo de censura, mas, em compensação, também não fez com que as pessoas percebessem que narrava a história do marinheiro Avelino Capitani, um célebre militar a tentar oferecer resistência ao golpe de 1964.

Talvez dribles icônicos na censura, como o clássico Cálice, ou o advento de Julinho de Adelaide, pseudônimo de Chico Buarque para passar canções mais contundentes como Acorda Amor, nos deixe com a impressão de que os censores eram figuras folclóricas, tacanhas e limitadas. Talvez fossem, de fato, mas Heloísa nos ofereceu subsídios para perceber que a repressão também podia levar a cabo articulações super intrincadas e sofisticadas.

[caption id="attachment_245" align="alignnone" width="840"] Renato Terra e o mediador, Paulo da Costa e Silva. Foto: Alfredo Alves/Dom B Produções[/caption]

Tudo que foi dito por Zuza e Heloísa ganhou uma poderosa ilustração por meio do documentário Uma Noite em 67, de Renato Terra, que recuperou importantes imagens do III Festival de MPB, que a TV Record promoveu em 1967, e que explica muitos dos caminhos percorridos pela música brasileira a partir de então. No final da fala de Renato, mais novo do que eu, muitas das cicatrizes da nossa jovem democracia se expuseram. O fato de não termos levado a cabo nossa comissão da verdade, o fato de sermos tão negligentes com nossa própria história, o fato de nenhum dos poderes instituídos punirem generais que fazem ameaças veladas nas redes sociais, tudo isso nos deixa em um caldo assustadoramente análogo ao pré-64. Os mesmos fantasmas, requentados, a assombrar a família tradicional brasileira pode acabar por ressuscitar esqueletos que nós nunca tiramos do armário, seja por falta de coragem ou por falta de vontade política.

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